Piada Real
Essa aconteceu comigo certo dia desses.
Um chef de cozinha famoso, num workshop culinário desses da vida, nos falava sobre um curso que ministrava em sua escola, enquanto abria uma garrafa de vinho, todo cheio de pompa:
- Aqui em nossa escola nós temos um curso de culinária superinteressante. Ensinamos as pessoas a se virarem com o que têm em casa, um sucesso. Não precisa comprar ingredientes elaborados, coisas caras. Por exemplo, você chega de madrugada e não acha nada para comer, a gente ensina como se virar e ainda preparar um prato delicioso. Se o sujeito tem apenas uma maçã e dois ovos, sei lá, ensinamos a fazer uma omelete gourmet! Ou então, tem meia cebola, um filé e pão, qualquer coisa, a gente ensina a inventar uma receita. Só tem um punhado de arroz e azeite? Sem problemas, você vai criar um risoto inesquecível. A ideia aqui é você aprender a ser autônomo na cozinha com o que tem, mesmo sem ser um chef. Criatividade é a palavra-chave desse curso que trouxemos da França para o Brasil. Vou dar um exemplo rápido e prático de como é simples, vou improvisar agora.
Ele despejou o vinho na taça e olhou para mim:
- Você, André, se eu abrisse a sua geladeira agora, por exemplo, o que encontraria?
- Meia garrafa de vodka e duas pilhas.
Meia Ao Meio
A Lucidez De Luiz
Luiz acorda no meio da madrugada num surto de lucidez.
- Eu vou ficar rico.
- Heim?!?
- Eu vou ficar rico.
- É mesmo Luiz?
- É, mesmo.
- E como você pretende fazer isso?
- Vou vender o meu corpo.
- Ah sim. Ótima ideia. Um velho de 51 anos, barrigudo, desleixado, vai conseguir muito dinheiro…
- Não Aparecida, não é isso. Vou vender meus órgãos, só que vou receber tudo antes de morrer, então quando morrer eles vem e me despedaçam.
- Você tá louco! Pra quem você vai se vender?
- Ainda não sei, acabei de ter essa ideia. Não aguento mais, quero ser feliz. Aliás, quero o divórcio.
- O QUE!?
- Quero o divórcio. Quero pegar aquela sua amiga… a Cristina.
- Deve ser a crise dos 50, não é possível.
- Nunca tive tanta lucidez.
- E aonde você vai morar depois do divórcio?
- Na Europa.
- Pensei que ia dizer na casa da sua mãe.
- Chega de pensar pequeno.
- Tá, tá, tá velho chato, então tá bom. Dorme que tenho que levantar cedo.
Luiz dormiu. Quando acordou, sua coragem já tinha ido embora e sua pseudo lucidez havia se tornado turva. Envergonhado de sua esposa, de cabeça baixa foi tomar café e ler o jornal. Nunca leu o jornal no café da manhã, mas precisava se esconder de alguma forma. Não conseguia encarar Aparecida, principalmente depois de confessar sua tara pela Cristina. De repente, baixa o jornal e anuncia.
- Eu vou ficar rico.
- Ah não. Desse jeito sou eu quem vai querer o divórcio.
- Tenho dois rins, pra quê eu quero…
- CHEGA!!!!
Não, Obrigado
- Filho, você já assistiu aquele filme: A Invenção de Hugo Cabret?
- Não.
- Não quer ver agora?
- Não, obrigado.
- A gente vai na locadora pega o DVD e você assiste.
- Não, obrigado.
- É muito bom, sensacional, conta a história de um menino que mora na torre de um relógio e…
- Mãe, eu sei, conheço a história.
- O que você vai fazer até às cinco horas?
- Sei lá, acho que vou ler um livro, talvez entrar na internet.
- Você trabalha na frente do computador o dia todo, por favor, isso faz mal para a vista.
- Eu sei, talvez eu vá ler um livro mesmo, mas antes preciso responder um e-mail.
- Não quer ver A Invenção de Hugo Cabret?
- Agora não, obrigado.
- Você vai gostar.
- Eu sei, mas agora não, obrigado.
- Eu vou tirar um cochilo, enquanto isso você pode ver o filme.
- Eu não quero ver filme, nem TV, obrigado.
- Você viu essa nossa nova TV 3D, não é demais? Tudo parece sair da tela assim, seu pai quase vomitou. Você coloca esses óculos aqui ó… Precisa ligar nesse botão.
- Mãe, eu sei como funciona 3D. Já fui ver vários filmes assim no cinema.
- Ahhhhh! Mas televisão é tão diferente. Onde você colocou a chave do carro?
- Pra quê?
- Pra gente ir na locadora, buscar a Invenção de Hugo Cabret.
- Mãe, eu não quero ver esse filme agora, eu quero fazer outra coisa.
- É tão lindo. Você coloca esse óculos aqui ó, liga esse botão. Tem uma cena que parece que a neve está caindo em cima de você…
- Tá bom, vamos buscar o filme, aí você vai tirar um cochilo, certo?
- Isso, enquanto eu durmo, você assiste A Invenção de Hugo Cabret.
- Tá bom.
- Só não esqueça de ligar os óculos, é nesse botão aqui, ó…
- Ok, ok, entendi.
A locadora estava fechada, ficamos quinze minutos estacionados na frente até que um funcionário abre as portas, ela entra e sai quinze minutos depois com dois DVDs debaixo do braço, faceira, andando curtinho, tique-tique-tique-tique…
- Por que demorou tanto se já sabia que filme pegar?
- É que eu também queria ver a Era do Gelo IV, mas os filhos do dono da locadora levaram o filme para casa, aí eu peguei Os Três Mosqueteiros.
Chegamos em casa, ela vai dormir e eu vou ler um livro. Duas horas depois ela aparece:
- E aí? E aí? E aí? Gostou?
- Mãe, eu vou ver o filme à noite, ok? Agora eu só queria ler um livro.
- Como você é chato. Como você é ranzinza. Como você é mal humorado. Como você azedo. Como você é crica. Como você é metido. Como você é grosso. Vou fazer um café.
Já na mesa de café:
- Experimente essa goiabada que sua tia trouxe de Minas.
- Mãe, você sabe desde sempre que não gosto de goiabada.
- Experimente um pedacinho.
- Não, obrigado.
- Tá tão gostoso…
Das Coisas Idiotas Que Fiz Na Vida IV
Ninguém é idiota somente uma vez na vida. Nem duas, nem três… Talvez quatro. Cinco? Quem sabe. Vamos ver o que acontece nos anos que me restam.
Quando era criança, nunca gostei de beber água, bebia capilé. No máximo, suco de uva já que refrigerante era restrito apenas para os finais de semana. Bebida tinha que ter gosto, senão não gostava.
Era o que eu levava no meu cantil de alumínio na época de lobinho. Lobinho. Uniforme azul, lenço no pescoço e boné do Huguinho, Zezinho e Luizinho. Essas maldades que os pais cometem com a gente em algum momento da vida e que você nunca vai conseguir retribuir à altura.
Num sábado qualquer, teve um prova de maratona e meu grupo escoteiro foi convidado a fazer escoteirices. Basicamente, andar de um lado para o outro em fila e ficar perto da Aquelá sem se perder, de modo que nossos pais pudessem ter um tempo em paz sem a gente por perto. Essas coisas de utilidade pública.
Ao final da tal maratona, bem na linha de chegada, eu estava sentado num banco, comendo meu sanduíche de presunto com outros lobinhos, sempre vigiado pelos olhos atentos da Aquelá, quando um corredor que terminava a prova começou a passar mal.
Um paramédico veio correndo em minha direção: “rápido, lobinho, preciso de seu cantil para ajudar o moço que não está nada bem”. E antes mesmo que eu pudesse explicar minha esquesitice infantil, ele tirou o dito cujo de minha cintura, desrosqueou a tampa e meteu goela abaixo do atleta, que quase desmaiava ali no asfalto.
O primeiro gole foi um gole de quem correu uma maratona inteira: com gosto, com sede, desidratado, morrendo. Quase um litro de uma só vez. Glup!
O segundo gole foi de quem necessitava urgentemente de água, e descobriu que suco de uva fervido num cantil de alumínio, durante quase quatro horas no sol, não serve.
O paramédico segurava sua nuca com uma mão e com a outra despejava o conteúdo do meu cantil em sua garganta. Enquanto o segundo gole entrava, o primeiro retornava saindo pelo nariz no pobre coitado. No terceiro, a boca virou um chafariz de suco quente jorrando na cara de todo mundo que estava ao redor antes, de começar a ter convulsões.
Me lembro de estar segurando o sanduíche meio mastigado numa mão e colocar a outra no ombro do paramédico que limpava o rosto:
- Doutor, é uva.
Definitivamente, aquela não foi uma boa ação.
Aniversário
Odiado diário,
Hoje é meu aniversário de 5.449 anos. Grande coisa! Em cinco milênios e meio (arredondei 51 anos, que não são nada), nunca, jamais, ninguém me deu os parabéns. Nunca, ninguém, jamais decorou uma árvore e colocou presentes em minha homenagem. Nunca, ninguém, jamais, mandou cartão para alguém por minha causa.
Vá lá! Tudo bem, não sou de guardar rancores e não vai ser dessa vez que me comportarei mal, ou me vingarei dos esquecidos. Juro que não vou fazer birra nem fazer com que todos paguem o pato como fiz na época da peste negra, ou da gripe espanhola. Juro, juro, juro, juro, que dessa vez vai ser diferente. Prometo que se ninguém me ligar, vou apenas criar um tsunami, só. Unzinho só, coisa pouca. Nada de mais. A primeira e segunda guerras eu estava bêbado. Sorry, acontece.
Nesses dias de aniversário até ando de bom humor a ponto de não permitir nascer mais políticos no Brasil, por uns, sei lá, dois dias. Mais! Hitler está em sua jaula e até ele tem latido pouco. Prometo não soltá-lo, vejam só como estou feliz.
Enfim, odiado diário, hoje é meu aniversário. Ou alguém me dá os parabéns, ou faço o calendário Maia virar realidade. Faltam dois meses. E tenho dito!
Parafina
Não gosto de Parafina. Não chega a ser um trauma infantil, antipatia ou doença terminal. Afinal, sou consciente de que tudo nessa vida um dia tende a ter um fim. A não ser programas de auditório.
Quando se aproxima o dia de finados, meu corpo fica completamente tomado por uma estranha irritação de pele. Ninguém ainda soube me explicar ao certo o que é essa deformação. E para meu azar, meu rosto é quem sofre mais. Minha pobre face fica tão deformada que já me valeu o apelido de Homem Elefante. Dado pelo meu próprio dermatologista.
Mas o que me incomoda mesmo é o cheiro da parafina. Nossa como fede. E não é um cheiro qualquer não. Ele é encorpado, agridoce, irritante, enjoativo. Quem já sentiu o bafo de um boxer sem escovar os dentes há mais de 10 anos sabe do que estou falando.
Pior é que tem gente que tem a capacidade de ir ao cemitério acender um tolete, um calhamaço, uma verdadeira ogiva nuclear com duzentas e noventa e cinco velas com um único palito de fósforo. E o pior é que ao invés de descartá-lo ainda me enfia o que restou do palito no canto da boca. É o cúmulo da falta de sensibilidade. Uma pessoa que faz isso pra mim ou nasceu sem olfato ou é casada com um gambá.
Sorte do gambá. Afinal quando separar-se dessa pessoa o dinheiro do pagamento da pensão alimentícia poderá ser substituído por quantidades infinitas de velas. Velas brancas, pretas, amarelas e até velas do sétimo dia. Que devido ao seu gigantesco tamanho une o útil ao agradável. Além de ficar queimando por uma boa dúzia de dias, com seu cheiro peculiar espanta todo tipo de mal. Começando pelos vizinhos.


















